sábado, 22 de março de 2014

Tweeter e Tojo de Bandeja







Você sabe o que é tweeter?

Não, não, não...

Nada a ver com rede social Twitter...

Tweeter era um auto-falante em corneta que fazia os graves e agudos do rádio de automóvel...

Sonho de consumo de nosso fusca...

Lembro que equipei o meu fuscão 1.500 com lanterna Fafá de Belém, bancos Procar e rádio Rio de Janeiro com triaxial na Hermes Macedo da Avenida Brasil em Bonsucesso...

Existia também uma loja chamada Josias Studios especializada em acessórios ali no Santo Cristo...

Hermes Macedo era melhor, fazia em dez prestações no carnê...

Nunca gostei de carnê...

Carnê me lembrava um trauma da adolescência, minha mãe me obrigava entrar na fila do Banrisul para quitar aquela pilha de carnês com a foto do Silvio Santos rindo na capa...

Aquilo era o fim para um guri de cabelos compridos e calça boca de sino...

Pior, junto com os carnês do Baú da Felicidade, tinham outros da Erontex com o retrato no J.Silvestre...

Aquilo era pior que esvaziar penico...

Pôs bueno...

Quando comprei meu fusca eu já tinha motocicleta...

Meu primeiro veículo de duas rodas eu tive aos 13 anos: uma velha LD 1955...

Depois vieram CG; Turuna; todas CBs 400; 450 e uma 750...

Minha fixação sempre foi motocicleta, o fusca veio para me salvar dos dias de chuva...

Lembro que aos 18 anos meus amigos que não tinham carro faziam cópia do carro do pai e colocavam no chaveiro para tirar onda...

Outros, iam  mais além...

Compravam um rádio Tojo de bandeja e colocavam sobre a mesa do bar para induzirem a mulherada que estariam motorizados...

Quem tem mais de 50 anos sabe do que estou falando...

Ter carro era garantia de arrumar namorada...

Lógico, até a namorada descobrir que o Tojo de bandeja não possuia o complemento...

Engraçado como temos a capacidade de sermos ridículos sem culpas...

Teve uma época em eu possuia um bugre, um chevette 82 novo e - lógico - uma motocicleta...

Eu gastava mais de garagem do que de aluguel...

Só que, eu tinha uma turma de amigos ferrados...

Eu só chegava no bar, no churrasco e na pelada a pé para não parecer ostentação boboca...

Certa vez um deles descobriu e a notícia se espalhou como rastilho...

Como não sou apegado a nada...

Meu bugre passou a ser emprestado, durante meses eu nem sabia onde ele estava...

O chevette era convocado para levar a avó doente de algum ao médico, a tia ao super mercado, o avô moribundo para conhecer o Cristo...

Daí, troquei de namorada...

Ela era ciumenta por qualquer coisa que me cercasse...

Fez eu resgatar meus veículos terceirizados nas mãos de amigos...

Com a sua assessoria...

Vendi e comprei um MP Lafer branco com portas de madeira...

O sonho de consumo dela era andar de chapelão com a capota levantada, tal uma Grace Kelly...

Ninguém tinha coragem de me pedir emprestado...

Mas, eu sentia saudades da fuleragem...

Certa vez emprestei para um amigo pobre ir à um casamento...

A Princesa de Mônaco não me perdoou...

Pegou seu Miura e foi embora...

Não lamentei...

Eu estava cansado de sentar envergonhado no meio de restaurante e assistir o Maitre flambando com  fogaréu até o teto ou o La Tour, no último andar do prédio da Aeronáutica do Castelo, giratório que me dava enjôo...

Sou street dog irrecuperável...

Voltei aos churrascos na Praça do Russel...

Só sentia falta do Miura perolado dela que avisava quando a porta estava aberta...

Nunca é possível ter todas as coisas ao mesmo tempo...

Tempos desses a descobri no facebook...

Ela casou e mora no mesmo balneário, onde passávamos férias, que eu lhe ensinei a gostar...

Ela sempre dizia que moraria lá algum dia...

Só não me avisou que independente da minha presença... 

Sem problemas...

Se eu  junto ela já estaria viúva, bela e loira...

Odeio bucolismo...

Paisagem morta só é ótima nos quadros picotados de Monet...

Prefiro estar sobrevivente e agora, infelizmente teso, contemplando a vida pulsando rápida na minha frente...




Jorge Schweitzer




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